quarta-feira, 14 de julho de 2021

As cachaças gaúchas em 2021.

 

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA divulgou na primeira quinzena de julho o Anuário da Cachaça e da Aguardente no Brasil em 2021, com os dados referentes aos estabelecimentos, marcas e produtos registrados no ano anterior de 2020 e legalmente autorizados à comercialização em todo o país.

 O Anuário 2021 identificou aumento de 6,8% do registro de produtores de cachaça de 894 para 955, no entanto os produtores de aguardentes tiveram queda de 3,5% de 357 para 345, com 169 estabelecimentos que produzem ambas as bebidas. No Brasil, as marcas de cachaça tiveram aumento de 18,5% e passaram de 4004 no anuário anterior para 4743 atualmente. As aguardentes, mesmo com a diminuição do número de produtores tiveram aumento de 11,3%, de 701 para 780 marcas. Somados os dois produtos são 5523 marcas comercializadas legalmente no Brasil.

A cachaça no RS em 2021.

Quanto à produção de cachaças:

- O Rio Grande do Sul caiu da quinta para a sexta posição com 44 (4,6%) dos estabelecimentos legalizados.

- No registro de marcas o RS está na quarta colocação com 324 (6,83%) e também em quarto lugar no registro de produtos com 240 (6,79%).

- Destaque para o município de Ivoti, principal polo produtor gaúcho, em terceiro lugar no registro de marcas com 119 (2,5%) e também terceiro lugar no registro de produtos com 72 (2,03%).

- Este município situado no Vale do Rio dos Sinos tem-se destacado a frente de regiões produtoras importantes e também pela qualidade das cachaças e premiações conquistadas.

- Na densidade de alambiques, destaque para o município gaúcho de Poço das Antas que está em segundo lugar no país com um alambique para cada 1051 habitantes.

- Em relação ao número de produtores por habitantes, são 3,86 estabelecimentos registrados para cada milhão de gaúchos, atualmente em 11,377 milhões.

A diferença entre o número de marcas e de produtos está relacionada à quantidade de marcas informadas para um mesmo número de registro de produto. Não há limite para a quantidade de marcas que um mesmo registro pode deter.


Colheita da cana para produção de cachaça no Vale do Rio Taquari no RS.


Aguardentes

Quanto à produção de aguardentes, o Rio Grande do Sul está na quinta posição com 23 (6,66%) dos 345 estabelecimentos legalizados. No registro de marcas também está na quinta colocação com 68 (8,71%) e no quarto lugar no registro de produtos com 45 (8,06%). Destaques para os municípios de Flores da Cunha com 4 (1,14%)  dos estabelecimentos legalizados e 10 (1,28%) das marcas e Não-Me-Toque com 8 (1,43%) dos produtos registrados.


sábado, 3 de julho de 2021

A arte e a cultura da tanoaria no Rio Grande do Sul.

Balcão produzido pelas Pipas Serval - Caxias do Sul/RS.

Assim como a cachaça, a tanoaria no Rio Grande do Sul também começou com os imigrantes, especificamente com os alemães.  Consta que na região do atual município de Ivoti em 1827 chegou Johannes Leuck vindo de Ungstein um vilarejo na região do Rio Reno na Alemanha onde fazia barris para vinhos. Ao chegar no RS dedicou-se ao cultivo de videiras e produzia seus próprios barris para armazenar sua produção. Atualmente a Família Leuck está na 7ª geração e continua fazendo barris e preservando a cultura tanoeira gaúcha.

Em um tempo em que não existiam dornas plásticas ou de inox para armazenar as cachaças e outras bebidas as dornas de madeiras eram a única solução tecnologicamente viável para se estocar este tipo de produto.  É aqui que surge um problema de logística: os carvalhos, madeiras seculares na confecção de barris, estão do outro lado do oceano, então onde conseguir madeiras que permitam armazenar estas quantidades grandes de bebidas e outros alimentos com segurança e eficiência?  A solução foram dornas de madeiras nativas, pois este era o recurso disponível em enormes árvores da Mata Atlântica. Obviamente que as fermentações também eram realizadas em dornas de madeiras.


Tanoaria Mesacaza - Monte Belo do Sul/RS.


Mas quais madeiras nativas os imigrantes usaram? Existem documentos que indicam que em 1850 na Colônia São Pedro - atual município de Dom Pedro de Alcântara no litoral norte gaúcho - foram produzidos 632 tonéis de 500 litros de cachaça. De que madeiras eram feitos estes tonéis? E que árvores dos vales e encostas dos rios os imigrantes italianos utilizaram a partir de 1875 quando ocuparam principalmente as serras gaúchas?

Não é possível afirmar com certeza, mas as madeiras que se tornaram tradicionais e que possuem todas as características necessárias à tanoaria são a grápia, a cabreúva, a canela sassafrás, a amburana, o angico e possivelmente utilizavam também ipês. Outras árvores certamente foram testadas, mas estas são as que apresentaram as características mais adequadas à construção de barris e armazenamento de cachaças e outras bebidas. Atualmente as tanoarias gaúchas trabalham com estas madeiras, carvalhos americanos e europeus, além de reformas, tostagens e revitalização de barris importados.


Tanoaria Leuck - Ivoti/RS.


Os imigrantes italianos a partir de 1875 desenvolveram muito a tanoaria gaúcha, inclusive dominavam técnicas mais apuradas com dornas e tonéis menores, que possibilitavam uma proteção maior e um armazenamento melhor e, portanto, uma qualidade mais apurada. Possivelmente foram os imigrantes italianos da Serra Gaúcha que iniciaram o uso sistemático do modelo bordalesa em adegas nos porões das casas onde armazenavam além de cachaça, vinhos, brandys e grappas. Existem várias tanoarias que tem descendentes de italianos como proprietários com várias gerações preservando esta arte da tanoaria, que ainda está bem presente na cultura dos povos que colonizaram o Rio Grande do Sul.

Atualmente algumas tanoarias, além dos barris tradicionais para o armazenamento de bebidas, utilizam a mesma técnica na produção de objetos decorativos, tinas de vários tamanhos, ofurôs, móveis provenientes de pipas antigas e até cabanas  que valorizam muito os espaços e ambientes aos quais são integrados.

Tanoarias gaúchas que localizamos durante a produção deste artigo.

Esta lista pode ser atualizada em qualquer tempo. Para isso, envie o nome, local e contato do empreendimento.

Tanoaria Mesacaza – Monte Belo do Sul/RS

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Serval Indústria de Pipas Ltda -  Caxias do Sul/RS

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Tanoaria Leuck – Ivoti/RS

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Tanoaria Monte Belo – Monte Belo do Sul/RS

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domingo, 20 de junho de 2021

Labrenta - Monte Belo do Sul/RS.

A Labrenta foi fundada em 1971 na região de Bassano del Grappa na Itália, uma região produtora de vinhos, grappa e azeite de oliva. Produz tampas personalizadas para produtos premium que exigem embalagens diferenciadas e desde então projeta soluções inovadoras ao mercado de bebidas com produtos de valor agregado, que atraem e transmitem o conceito de qualidade para o público através da embalagem e busca sempre fornecer a tampa correta para os produtos.

Em 2005 foi fundada no Brasil a sede produtiva da Labrenta com transferência da tecnologia italiana e a experiência de quem estava no mercado há mais de 30 anos. A experiência adquirida permite gerenciar todos os aspectos da produção com a segurança de quem domina as tecnologias disponíveis, conhece o mercado e sabe realmente como cada produto é único e que também requerem tampas exclusivas.



Isso Também é uma realidade para as cachaças e a Labrenta desde o município de Monte Belo do Sul atende a demanda dos produtores do Rio Grande do Sul e de todo o Brasil nos seus projetos de premiunização das suas marcas com projetos exclusivos e que agregam valor na percepção dos consumidores mais exigentes. A Labrenta atende a todo o mercado de bebidas destiladas premium do Brasil e também de diversos outros países latino americanos, com exportações e contratos com diversas marcas de destaque.

Labrenta é sensível às questões ambientais e tem consciência das suas responsabilidades para com o planeta e a vida. Em 2010 surgiu o Greencork, projeto em colaboração com o gabinete de arquitectura MCA & Partners com uma linha decorativa inteiramente em cortiça recomposta. A qualidade estética e a sustentabilidade ambiental tornam a coleção Greencorks única no panorama do design ecológico. a partir de 2012, A instalação de um sistema fotovoltaico de 100 quilowatts contribui com 30% das necessidades diárias de eletricidade da empresa.



"Temos uma alma verde que continuaremos alimentando graças às nossas inovações e compromissos assumidos com relação à proteção dos recursos naturais."

Labrenta na internet - Clique aqui.

Labrenta no Instagram - Clique aqui.


sábado, 5 de junho de 2021

Grappa e Destilados L'onore - Nova Pádua/RS.

No município de Nova Pádua na região da Serra Gaúcha, área colonizada em 1886 por imigrantes italianos do Vêneto, desde 2019 um novo empreendimento chama a atenção não apenas dos gaúchos, mas do país e do Mercosul.
Anderson Marostica produz a Grappa L’onore nas versões branca e envelhecida em carvalho francês. Também produz o L'onore London Dry Gin e licores de nozes e macela, uma planta nativa e muito apreciada no sul do país.

Esta História começa antes, há uns 60 anos quando o avô de Anderson, Pedro Marostica e seu pai começaram a produção de destilados na margem do Rio das Antas, mas alguns contratempos fizeram com que a produção fosse descontinuada, dedicando-se a família ao cultivo de videiras e outras culturas, sempre em sistema de agricultura familiar o que garantia autossuficiência e excedentes que eram utilizados na aquisição de outros produtos como instrumentos agrícolas, tecidos e produtos não disponíveis na comunidade como o café.



Anderson cresceu ouvindo esta saga e sempre sonhou em retomar o sonho dos antepassados de produzir a melhor grappa com a mesma qualidade das italianas. Então tomou a decisão e partiu para uma jornada de formação e capacitação para entender os métodos e técnicas de produção. Para isso e com a assessoria de um amigo italiano adaptou a estrutura de um alambique Santa Efigênia para produzir com o mesmo método utilizado na produção das melhores e mais conceituadas grappas, trazendo para o Brasil os mesmos conceitos aplicados pelos masters destillers italianos. O resultado é realmente surpreendente, com produtos de extrema qualidade e complexidade sensorial.

A grappa é uma bebida muito versátil e com aromas e sabores sofisticados, que possibilitam seu consumo pura, na gastronomia, na coquetelaria e também em harmonizações com charutos e sobremesas. Uma receita tradicional dos italianos é a grappa com café, geralmente consumida pela manhã, um hábito muito comum entre os italianos e os imigrantes e seus descendentes no Rio Grande do Sul.


Anderson com o avô Pedro Marostica. Fonte: O Florense.


Anderson conta com orgulho que seus produtos são o fruto de um trabalho intenso de pesquisa e de resgate da cultura italiana e das tradições familiares e que mesmo tendo iniciado as atividades no início da pandemia Covid-19, já conquistou consumidores fiéis e um público que tem reconhecido as suas bebidas como inovadoras e diferenciadas. “Às vezes se trabalha 18 horas por dia, pois a grappa requer muita mão de obra pesada, mas a satisfação é maior que o cansaço no fim da jornada.”

A grappa e os produtos L’onore são produzidos principalmente com matéria prima de uvas chardonnay, que transfere frescor e aromas florais, proveniente das vinícolas da região e os cuidados são intensos desde a armazenagem, transporte, tratamento e fermentação que utiliza leveduras selecionadas importadas da Itália, as mesmas utilizadas pelas melhores casas produtoras no Velho Continente.



A marca L’onore remete a um fato acontecido na Idade Média na atual cidade italiana de Marostica, de onde são provenientes os antepassados da família, quando uma bela dama chamada Lionora e filha do imperador local tinha dois pretendentes ao seu amor. Para decidir a questão construiu-se um enorme tabuleiro de xadrez em que se disputou uma partida com peças humanas para decidir o feliz ganhador. Assim as duas cores do elmo da logomarca representa os dois adversários e a disputa das peças brancas e pretas da épica partida de xadrez. O enorme tabuleiro ainda está presente na praça central da cidade italiana e agora a História está eternizada também nos Destilados L’onore da Região dos Altos Montes Gaúchos.

Grappa e destilados L’onore no Instagram clique aqui.


quarta-feira, 26 de maio de 2021

Datas importantes para a cachaça no Rio Grande do Sul.

Cachaças antigas produzidas no RS.

A cachaça no Rio Grande do Sul possui algumas características próprias. Este é um Estado que foi incorporado mais tarde ao território brasileiro, no Século XVII, pois era parte da Espanha pelo Tratado de Tordesilhas. A data considerada como marco original do Rio Grande do Sul é 1680 com a Fundação da Colônia do Sacramento na margem do Rio da Prata. A política de ocupação territorial então começa com os imigrantes açorianos.

1752 – Início da imigração açoriana como política de ocupação do Rio Grande do Sul pelo Império Português.

1770 – Registro das primeiras mudas de cana-de-açúcar trazidas pelos irmãos portugueses Manoel e Antonio Nunes Benfica que se instalaram no lugar denominado Posto da Guarda, atual município de Santo Antonio da Patrulha.

1773 –  Domingos Fernandes Dias que se instalou na margem da Lagoa da Pinguela na Estância da Serra, atual município de Osório, traz mudas de cana da Ilha da Madeira.

1778 – Registro da primeira destilação de cachaça no território gaúcho no mesmo local do item anterior. Este registro está em um documento com data de 1790.

1824 – Início da colonização alemã que se fixa nos vales dos rios e no litoral e dá escala na produção de cachaça, transformando a bebida em uma valiosa mercadoria que negociavam com os tropeiros e adquiriam produtos e ferramentas como roupas, café e instrumentos agrícolas. A destilação da cachaça pelos alemães iniciou-se em 1829 ou 1830 aproveitando a experiência na produção de um destilado de batatas denominado schnapps. Em 1850 a escala de produção já era significativa, com a produção na Colônia Três Forquilhas de 91 tonéis e na Colônia São Pedro de 632 tonéis de 500 litros.


Dorna de fermentação na Colônia São Pedro, atual município de Dom Pedro de Alcântara.
Foto - Vânia Rodrigues.


1848
– Primeiras destilações da Família Weber na Linha 48, atual município de Ivoti no Vale do Rio dos Sinos.

1875 – Início da colonização italiana que se fixa nos vales dos rios serranos e também aprende imediatamente o cultivo da cana e a produção de cachaças que utilizam como mercadoria fundamental nas trocas e aquisições de outros produtos com os tropeiros. Os italianos tinham um volume de produção menor, mas com muita qualidade. Foram os introdutores dos tonéis bordalesas no Rio Grande do Sul.

1925 – Primeiras destilações da atual Casa Bucco no Vale do Rio das Antas no município de Bento Gonçalves.

1928 – Inauguração da Usina Santa Martha no mesmo local do registro da primeira destilação no território gaúcho, na margem da Lagoa da Pinguela no município de Osório. Início da produção da cachaça Santa Martha, a primeira marca legal e registrada do RS.


Usina Santa Martha na margem da Lagoa da Pinguela, berço da cachaça gaúcha.


1948 – Instalação das primeiras estruturas da Destilaria Weber Haus no município de Ivoti e da produção da Caninha Primavera. A Weber Haus torna-se a partir do início deste século a grande referência de qualidade e inovação na produção das cachaças gaúchas.

1952 – Chegam ao Brasil os imigrantes italianos da família Borsato que terá papel fundamental no desenvolvimento da produção da cachaça no Rio Grande do Sul.

1985 – Marcello Borsato adquire a Fazenda Maribo no município de Osório, muito próximo dos locais da produção primitiva. Os produtos da Fazenda Maribo ganham fama e admiradores pela qualidade e apresentação em garrafas diferenciadas. Além da Santa Martha, na Fazenda Maribo eram produzidas as cachaças Velho Pescador e 30 Luas, que ganham fama nacional e internacional.

2014 – A Weber Haus adquire da Fazenda Maribo as marcas Santa Martha, Velho Pescador e 30 Luas ampliando a sua linha de produtos e qualificando ainda mais a produção destas cachaças.


Santa Martha, primeira marca registrada do RS.


Muitas outras datas poderiam ser acrescentadas, mas estas são as principais referências no desenvolvimento das cachaças gaúchas. Atualmente são muitos alambiques e marcas em todas as regiões do Estado, mas são mantidas as características originais da produção, principalmente por causa do clima ameno e com invernos rigorosos, fato que condiciona o cultivo da cana e os períodos de destilação. Mas este é um assunto para outra postagem.

Em breve o livro impresso e digital (Quase) Todos os Segredos das Cachaças Gaúchas. Com apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

(Quase) Todos os Segredos das Cachaças Gaúchas.

Imagem ilustrativa.

Em breve o livro impresso e digital com apoio da Lei de Incentivo à Cultura - Procultura do Estado do Rio Grande do Sul. O projeto foi aprovado no dia 27 de abril em votação do Conselho Estadual de Cultura gaúcho que autorizou a busca de recursos junto aos apoiadores para a edição e lançamento deste trabalho que resgata a cultura, a história e as tradições do cultivo da cana-de-açúcar e da produção dos seus derivados como a cachaça neste Estado.

O projeto nasceu com a proposta de um ebook e a descrição dos principais alambiques gaúchos, mas evoluiu para uma parceria com a Associação Cultural Atlântica de Bento Gonçalves/RS.  A partir daí se tornou um amplo projeto com mais de dois anos de pesquisas que reúne as informações e resgata a história e cultura da cachaça no Estado, desde a chegada das primeiras mudas de cana trazidas pelos açorianos ao desenvolvimento do cultivo e da produção de derivados pelos imigrantes alemães e italianos. A importância dos tropeiros na distribuição e trocas de mercadorias com a cachaça como uma das mais valorizadas é abordada em uma perspectiva fundamental do desenvolvimento cultural, histórico e econômico regional.


Os autores visitaram alambiques e áreas de produção do Rio Grande do Sul.


Também há uma valorização da gastronomia tradicional do sul e do uso da cachaça em receitas salgadas e doces, além de coquetéis exclusivos elaborados por bartenders e mixologistas gaúchos. A descrição dos principais alambiques e regiões produtoras traz o panorama atual da produção e da importância cultural da cachaça no Estado.

Nos próximos meses será organizada a equipe de produção e a busca de recursos junto às empresas gaúchas para viabilizar a edição deste trabalho que pretende divulgar uma parte fundamental da cultura, da história e das tradições regionais e brasileiras.


A produção orgânica e a agricultura familiar são características das cachaças do RS.

domingo, 25 de abril de 2021

A cachaça e a vida.

Albino Hendges com a esposa Regina e a família. Meu pai é o primeiro da direita.

Para os pequenos agricultores do Rio Grande do Sul a cana-de-açúcar sempre foi fundamental para a sobrevivência e a economia das famílias e comunidades.

O uso da cana para a nutrição dos animais e a produção familiar e artesanal dos seus derivados, inclusive da cachaça, era uma indispensável fonte de energia nos rigorosos invernos gaúchos de até -10ºC.

A extração do caldo para a produção de bebidas como a cachaça e alimentos como açúcar mascavo, melado e rapaduras era realizada em moendas de madeira movidas por tração animal, geralmente uma parelha de bois, mulas ou rodas d'água.

Uma das minhas primeiras lembranças é o meu avô Albino Hendges liderando a família na colheita e moagem da cana para a produção de melado e rapaduras. A moenda instalada em sua propriedade localizada no Passo da Laje, atual município de Ibirapuitã, além da família servia aos moradores locais que chegavam com carretas puxadas por juntas de bois cheias de cana e utilizavam a estrutura de moenda, tachos e fornos no local para prepararem suas próprias reservas. Estes acontecimentos eram quase uma festa, uma integração familiar e social que às vezes reunia umas 40 pessoas.

Esse melado e rapaduras eram armazenados em barris e caixas de madeira que transmitiam um sabor muito especial, possivelmente barris de grápia ou cabreúva, árvores bem típicas das florestas da região.

Barril de aproximadamente 100 litros feito em 1911.

É claro que a cachaça estava presente e animava os mutirões, geralmente adquirida pela troca dos excedentes da agricultura e consumo familiar com os pequenos comerciantes das bodegas e bolichos: o Seu Orides e a Dona Vilma no Bom Sossego, o Valdemar Picinini no Passo da Laje, a bodega e o moinho dos Garcia no Quebra Dentes, o moinho dos Padilhas nas margem do Rio Porongos, o Bertol e o Portela na *Sédia.

Algumas marcas de cachaças da época eram Camponesa, Vila Velha, Tatuzinho, Tremapé, 7 Campos de Piracicaba e 3 Fazendas. Também adquiriam garrafões de vidro com 5 litros mas não sei de onde vinham, possivelmente de algum alambique pra os lados de Passo Fundo...

*Assim era denominado pelos habitantes das comunidades locais - Bom Sossego, Linha São João, Passo da Laje, Os Mânicas, Encruzilhada do Rio Povinho, Quebra Dentes, Santa Terezinha, Mato Alto, Tope (atual município de Nicolau Vergueiro) e outras menores - a sede do então 9º Distrito de Soledade e atual município de Ibirapuitã emancipado em 1987.

A cachaça na guampa era guardada na sombra e consumida nos intervalos para descanso dos mutirões. 

Estes mutirões aconteciam também em outras ocasiões como a colheita da erva mate, a preparação da terra, plantio e colheita dos vários produtos que eram cultivados nas pequenas e médias propriedades da região. E nunca faltava a cachaça que era enterrada no solo em uma sombra para resfriar. Outra forma de acondicionar a cachaça era em um chifre grande de gado bovino com o fundo e a tampa de madeiras como cabreúva, grápia, açoita-cavalo ou ipê que era chamada de "cachaça na guampa".

As moendas de madeira eram movidas por tração animal ou rodas d'água. Essa era movida por 1 junta de bois.

Com certeza estas lembranças motivaram minha identificação com a cachaça, a cana-de-açúcar e seus produtos, a agricultura familiar e orgânica, o meio ambiente, o desenvolvimento sustentável e a liberdade. Foram muitas as atitudes e aventuras em que as lembranças do canavial, da moenda e da liderança familiar e comunitária do meu avô impulsionaram os passos, as decisões, as curiosidades e descobertas nas estradas da vida.

 Cachaça 100% Brasil 

Antonio Silvio Hendges, escritor e sommelier.

 Livro (Quase) Todos os Segredos das Cachaças Gaúchas. 

terça-feira, 13 de abril de 2021

A Fazenda Maribo e as cachaças 30 Luas e Velho Pescador.


Kit 30 Luas. Foto: Weber Haus.
A saga começa na região do Vêneto na Itália e se estende ao Brasil em 1952 quando os pais de Marcelo Borsato desembarcam no Porto de Santos/SP procurando no Brasil o que a Europa pós 2ª Guerra não tinha: paz e... oportunidades. Lá na Itália os Borsato tinham uma longa tradição de cultivo de produtos da terra e de excelência na produção de receitas de alimentos e bebidas. O final do longo caminho foi a Serra Gaúcha no município de Veranópolis onde iniciaram a produção de destilados que ganharam destaque pela qualidade.

Marcello Borsato casou-se com Mari Milani e tiveram três filhos que continuaram as atividades na agroindústria familiar. Em 1985 a família adquire uma fazenda no município de Osório no litoral norte gaúcho e compondo o nome Mari com as iniciais do sobrenome Borsato é denominada Fazenda Maribo. Aqui melhoraram ainda mais a qualidade dos seus produtos e tornaram famosas algumas marcas de bebidas destiladas como as cachaças 30 Luas e Velho Pescador que eram vendidas aos turistas e clientes no famoso “Armazém da Fazenda Maribo” junto com geleias finas, licores, pães, queijos e salames coloniais. E assim a fama das cachaças da Fazenda Maribo ganhou o Brasil e o mundo.

Cachaças Velho Pescador. Foto: Weber Haus


As cachaças da Fazenda Maribo foram as primeiras no RS e no país a utilizarem garrafas diferenciadas com designs inovadores e acabamento esmerado e também estratégias de marketing mais elaboradas. Por exemplo, a marca 30 Luas faz referência aos trinta ciclos lunares de envelhecimento em barris de carvalho – 2,5 anos; a marca Velho Pescador evoca as águas, os rios e paisagens ribeirinhas, a natureza e a sua importância na memória e no inconsciente coletivo como atividade ancestral humana.


Velho Pescador Prata.


Em 2014, a Destilaria Weber Haus localizada em Ivoti/RS e a mais premiada do Brasil adquiriu estas duas marcas e continua a sua produção preservando os atributos originais e com isso a História da cachaça no Rio Grande do Sul e no país, pois a Fazenda Maribo sempre será uma referência de inovação, pioneirismo e qualidade.

Fonte das informações: Clique aqui e aqui.


Antonio Silvio Hendges

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