No caso das bebidas destiladas, estas também circularão com
a isenção dos impostos que no caso brasileiro sobre os destilados europeus
variava entre 20% e 35% com média em torno de 28%. Por exemplo, um whisky que
entrava no Brasil a R$ 150,00 entrará por R$ 108,00; uma vodka que entrava por
R$ 80,00 entrará por R$ 57,60. Ou seja, haverá uma redução do preço das bebidas
destiladas importadas do bloco europeu. E
também uma variedade muito maior de bebidas, marcas e produtos em circulação. Isso
também vale para vinhos e espumantes.
E as cachaças de alambique brasileiras, como ficam nesta nova conjuntura econômica? De maneira geral há uma euforia entre os produtores embora não se realizaram debates, avaliações e estudos prévios e amplos com base em dados econômicos, geopolíticos e mercadológicos sobre os impactos deste acordo para o setor. Ou seja, é uma euforia mais com base em expectativas que em análises estruturais concretas. Claro que a cachaça também estará livre de impostos para entrar no bloco europeu e nos outros países do Mercosul, onde o Paraguai (em volume) e Uruguai (em valor agregado) já são importadores significativos. Será capaz de competir em preços, serviços e volume com as bebidas importadas?
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| Presidentes do Mercosul e Representante da UE. Foto: Ricardo Stuckert. |
Grande parte dos produtores ainda consideram caro investirem
em cursos e capacitação, educação e consumo, desenvolvimento sensorial,
organização e planejamento de produtos, contratação de profissionais como
sommeliers, master blenders e bartenders, precificação, comunicação e branding,
por exemplo. E atualmente também há uma “inflação” nos preços de algumas marcas
e produtos que são caros para o padrão atual do mercado interno e ficarão
sobrevalorizadas. Será necessário rever a planilha de custos e recalcular a
margem de contribuição de cada produto. Ou melhorar muito a entrega e o valor
percebido.
Quanto ao mercado interno ainda há um preconceito muito
grande em relação à cachaça e um desconhecimento da importância desta bebida
para a economia, a cultura e a identidade nacional. O termo “cachaceiro” ainda
é utilizado como depreciativo, inclusive por políticos como governadores e
deputados de Estados onde a cachaça e as aguardentes de cana têm grande
produção e importância econômica. Isso reforça o estereótipo da cachaça como
bebida marginalizada e de consumo indesejável e promove outras bebidas como
mais sofisticadas e menos prejudiciais. Esta postura também impede a adoção de
políticas públicas como créditos e incentivos que serão indispensáveis. A
iniciativa privada e a competição só são possíveis onde existem projetos,
pesquisas, conhecimentos, financiamentos, investimentos, parcerias, inovação e
desenvolvimento de mercados.
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| Bebidas alcoólicas em um supermercado europeu, variedade e qualidade. |
Outro problema poderá ser a própria legislação brasileira, a
Portaria 539/2022 que estabelece o Padrão de Identidade e Qualidade das Cachaças
e Aguardentes de Cana, mas também a possibilidade de muitos produtos, o que talvez
dificulte aos europeus entenderem o que de fato estão consumindo. Isso também
vale para o mercado interno – ou ao menos parte significativa, seja por
desconhecimento ou complexo de vira latas mesmo - que reconheça com mais
facilidade as bebidas importadas, principalmente as mais conhecidas. O excesso
de diversificação aqui poderá ser um dispersor do interesse em um mercado
competitivo e com foco no consumo de escala.
Em relação à entrada da cachaça na União Europeia, é
evidente que não será apenas a isenção dos impostos de importação que abrirá o
mercado de forma irrestrita aos produtos e marcas brasileiras – desde a
logística às preferências de mercado já consolidadas – e que aumentará a
demanda de forma a compensar uma competição local com as bebidas importadas.
Todos os conceitos nos parágrafos anteriores são válidos também para o mercado
europeu: será necessário pensar, agir e investir em um mundo com 745 milhões de habitantes sem
descuidar do mercado brasileiro onde a cachaça representa 78% dos destilados
consumidos (Euromonitor). Por exemplo, uma queda de 10% no mercado interno sem
uma consequente demanda externa será muito prejudicial para a cadeia de
produção e consumo.
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| As cachaças brasileiras terão oportunidades e desafios. Foto: Pixabay |
Será indispensável que os produtores de cachaças de
alambique, aguardentes de cana e outros destilados estejam conscientes e
preparados para enfrentarem esta nova realidade dos mercados interno e externo
nos próximos anos. Lembrando que os europeus tratam seus destilados como
produtos estratégicos e tem interesses econômicos enormes no Mercosul,
principalmente no mercado brasileiro.
Antonio Silvio Hendges - Sommelier de Bebidas Destiladas; Consultor em Educação e Consumo; Biólogo, Pós Graduação em Direito, Contabilidade e Economia Ambiental; Escritor dos livros (Quase) Todos os Segredos das Cachaças Gaúchas com apoio da LIC/RS; Da Cana ao Copo pela Editora Própria; Cachaças, Carretas e Tropeadas em produção com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.
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