quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Acordo Mercosul/União Europeia e o Impacto nas Cachaças de Alambique e Bebidas Destiladas Brasileiras.

O acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia estabeleceu a maior Área de Livre Comércio da História com 745 milhões de consumidores e a participação de 31 países em dois continentes, 27 países com 450 milhões de habitantes no continente europeu e 4 países com 295 milhões de habitantes na América do Sul. Ainda há a possibilidade da adesão de mais 9 países sul americanos. Haverá a circulação de mercadorias sem os impostos de importação e alguns outros encargos para 90% dos bens comercializados. Para a maioria dos setores econômicos e produtivos haverá uma expansão dos mercados e diminuição dos custos de insumos e matérias primas importadas.

No caso das bebidas destiladas, estas também circularão com a isenção dos impostos que no caso brasileiro sobre os destilados europeus variava entre 20% e 35% com média em torno de 28%. Por exemplo, um whisky que entrava no Brasil a R$ 150,00 entrará por R$ 108,00; uma vodka que entrava por R$ 80,00 entrará por R$ 57,60. Ou seja, haverá uma redução do preço das bebidas destiladas importadas do bloco europeu. E também uma variedade muito maior de bebidas, marcas e produtos em circulação. Isso também vale para vinhos e espumantes.

E as cachaças de alambique brasileiras, como ficam nesta nova conjuntura econômica?  De maneira geral há uma euforia entre os produtores embora não se realizaram debates, avaliações e estudos prévios e amplos com base em dados econômicos, geopolíticos e mercadológicos sobre os impactos deste acordo para o setor. Ou seja, é uma euforia mais com base em expectativas que em análises estruturais concretas. Claro que a cachaça também estará livre de impostos para entrar no bloco europeu e nos outros países do Mercosul, onde o Paraguai (em volume) e Uruguai (em valor agregado) já são importadores significativos. Será capaz de competir em preços, serviços e volume com as bebidas importadas?

Presidentes do Mercosul e Representante da UE. Foto: Ricardo Stuckert.
Outro aspecto é a disposição para aprender e inovar mais característica dos europeus que por terem acesso aos recursos (financeiros, políticas públicas, pesquisas, tecnologias) já estão mais familiarizados com absorver conhecimentos e replicarem em escala nos mercados competitivos. No Brasil há uma lacuna, às vezes resistência na busca de conhecimentos e capacitação pelos produtores que em parte ainda trabalham com tentativas de acertos e erros. Muitas vezes quando acertam não conseguem replicar estes acertos e vivem de glórias passadas. Ou seguem a mesma “receita” há décadas (isso também será importante se tiver identidade, origem, qualidade e boas histórias pra contar...).

Grande parte dos produtores ainda consideram caro investirem em cursos e capacitação, educação e consumo, desenvolvimento sensorial, organização e planejamento de produtos, contratação de profissionais como sommeliers, master blenders e bartenders, precificação, comunicação e branding, por exemplo. E atualmente também há uma “inflação” nos preços de algumas marcas e produtos que são caros para o padrão atual do mercado interno e ficarão sobrevalorizadas. Será necessário rever a planilha de custos e recalcular a margem de contribuição de cada produto. Ou melhorar muito a entrega e o valor percebido.

Quanto ao mercado interno ainda há um preconceito muito grande em relação à cachaça e um desconhecimento da importância desta bebida para a economia, a cultura e a identidade nacional. O termo “cachaceiro” ainda é utilizado como depreciativo, inclusive por políticos como governadores e deputados de Estados onde a cachaça e as aguardentes de cana têm grande produção e importância econômica. Isso reforça o estereótipo da cachaça como bebida marginalizada e de consumo indesejável e promove outras bebidas como mais sofisticadas e menos prejudiciais. Esta postura também impede a adoção de políticas públicas como créditos e incentivos que serão indispensáveis. A iniciativa privada e a competição só são possíveis onde existem projetos, pesquisas, conhecimentos, financiamentos, investimentos, parcerias, inovação e desenvolvimento de mercados.

Bebidas alcoólicas em um supermercado europeu, variedade e qualidade.

Outro problema poderá ser a própria legislação brasileira, a Portaria 539/2022 que estabelece o Padrão de Identidade e Qualidade das Cachaças e Aguardentes de Cana, mas também a possibilidade de muitos produtos, o que talvez dificulte aos europeus entenderem o que de fato estão consumindo. Isso também vale para o mercado interno – ou ao menos parte significativa, seja por desconhecimento ou complexo de vira latas mesmo - que reconheça com mais facilidade as bebidas importadas, principalmente as mais conhecidas. O excesso de diversificação aqui poderá ser um dispersor do interesse em um mercado competitivo e com foco no consumo de escala.

Em relação à entrada da cachaça na União Europeia, é evidente que não será apenas a isenção dos impostos de importação que abrirá o mercado de forma irrestrita aos produtos e marcas brasileiras – desde a logística às preferências de mercado já consolidadas – e que aumentará a demanda de forma a compensar uma competição local com as bebidas importadas. Todos os conceitos nos parágrafos anteriores são válidos também para o mercado europeu: será necessário pensar, agir e investir  em um mundo com 745 milhões de habitantes sem descuidar do mercado brasileiro onde a cachaça representa 78% dos destilados consumidos (Euromonitor). Por exemplo, uma queda de 10% no mercado interno sem uma consequente demanda externa será muito prejudicial para a cadeia de produção e consumo.

As cachaças brasileiras terão oportunidades e desafios. Foto: Pixabay

Será indispensável que os produtores de cachaças de alambique, aguardentes de cana e outros destilados estejam conscientes e preparados para enfrentarem esta nova realidade dos mercados interno e externo nos próximos anos. Lembrando que os europeus tratam seus destilados como produtos estratégicos e tem interesses econômicos enormes no Mercosul, principalmente no mercado brasileiro.

Antonio Silvio HendgesSommelier de Bebidas Destiladas; Consultor em Educação e Consumo; Biólogo, Pós Graduação em Direito, Contabilidade e Economia Ambiental; Escritor dos livros (Quase) Todos os Segredos das Cachaças Gaúchas com apoio da LIC/RS; Da Cana ao Copo pela Editora Própria; Cachaças, Carretas e Tropeadas em produção com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.


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